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TUDO AVULSO

Acontece-me... Por inspiração... transpiração... ou porque me apetece...

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01
Jul18

Catarse, será?

MariaLi

O tempo passa devagar. A cada passo, recordo o que acontecia há um ano: muita esperança misturada de desespero, tristeza.

Nunca gostei de sentir esperança.

Percorríamos muitos quilómetros para tornar mais leve a doença, para diminuir despesas e cansaço, para não desperdiçar tempo... Íamos intercalando na ajuda.

 

No princípio, houve muito desânimo. Recostado no assento inclinado para trás, olhos fechados, quase não se segurava, nem falava. Assim era cada dia, cada viagem.

A radioterapia e a quimioterapia terminaram e ele já sentia melhoras, mais peso, mais ânimo. Até ligou-me, depois de o termos deixado em casa, a agradecer o que fizemos e, também, satisfeito por não ter havido percalços...

 

Pausa.

 

Segunda fase de tratamentos. Pleno Verão. Os tratamentos não resultavam. Os mais lúcidos, logo perceberam para onde ele caminhava. Eu não quis entender e ele também não. Esperança. A tal esperança que não gosto de sentir... Tudo foi um passatempo, um entretenimento.

 

Mais novo nove anos que eu, o meu menino, o meu protegido, diziam. Em famílias grandes, os irmãos mais velhos têm sempre um protegido. Ou um aliado. Nos jogos, na entreajuda, nas quezílias...

 

E em Setembro, deixou-nos. Há pouco, ele tinha cuidado da mãe. Ela também tinha partido uns mesitos antes. 

 

Estes dias, recordo-o em todos os espaços onde estou. No campo. Na praia. Nas nuvens... Apesar do esforço presente no dia a dia: pensar e imaginar, o mínimo possível.

 

Outros dias e outras partidas se seguirão. É assim em famílias grandes.

 

*Uma frase que somos obrigados a ler, se frequentarmos esta praia:

-24.jpg

 

25
Out17

Se dormires comigo até ser grande, dou-te umas meias

MariaLi

Há dias da semana que nunca mais serão os mesmos. Por exemplo: as terças e as quartas.

Quatro semanas já passaram. Quatro terças e quatro quartas-feiras... Ainda me parece impossível.

Nessa terça-feira, estive toda a tarde no hospital a fazer-lhe companhia. Não arranjava posição e custava-lhe mexer as pernas. Apenas os braços gesticulavam. Estavam longos e suas mãos eram lindas. Deitou-se de lado, tocou minhas mãos, e assim estivemos uns momentos. Beijei-as e acariciei-as. Sorria para ele, fazia de conta que tudo iria ficar bem. Todos os ossos bem visíveis sobressaíam, em relevo, só a camada de pele os cobria, os olhos fundos, mas bonitos e meigos... Pediu lenços de papel e água, com lucidez e bem desenrascado, como sempre fora. Depois, a enfermeira aproximou-se, era jovem, séria e antipática, injectou-o e foi-se, e ele não mais foi o mesmo. Olhar distante, vazio, parecia nem saber que ali estávamos.

Eu não sabia que aqueles momentos de troca de carinho, seriam os últimos. 

No dia seguinte, preparava-me para ir ao hospital, de manhã, mas a notícia chegou. Morreu.

Culpei a enfermeira, os médicos. E eu não estive lá, para o ajudar a molhar os lábios, dar-lhe os lenços, mudar-lhe a posição das pernas... Mataram-no, era só o que conseguia dizer.

Há muito tempo, quando eu saí de casa para estudar no 1º. ciclo, ele teria uns 3 anos. Durante quase uma semana, não conseguia dormir e chorava, pois, estava habituado a ser o meu companheiro de quarto. Quando acalmou e aceitou aquela mudança, dizia a meus pais e irmãos que, se eu dormisse com ele até ser grande, me daria umas meias.

Foi difícil ver meu pai partir. Foi difícil ver minha mãe partir. Agora, um dos meus irmãos, dos mais novos, o que cuidou de minha mãe, devido à doença de alzheimer, até ao último momento, está ser a fase mais difícil da minha vida. Eu sei que tudo acaba, mas por favor, fazei-me mais capaz, mais preparada para enfrentar estes momentos.

 

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